quarta-feira, 11 de novembro de 2009

T.L.

Ah, hoje vou contar um segredo. Abrirei um pedacinho de mim que jamais havia aberto para ninguém, um "Eu" desconhecido até mesmo pelo meu próprio eu.
Sou uma moça de muita experiência, guardo comigo uma lasca de cada momento, de cada lugar e até mesmo de cada tropeço. Tida como nômade pelos meus muitos amigos, minha paciência acaba antes das raízes darem as caras. Minhas infinitas viagens fazem de mim algo parecido com um atlas, não há o que eu não conheça.
Conto-lhe, então, que aos 14 anos e filha de pais caretas, resolvo sair de casa, fujo para o México com a caravana do circo. Eu era a melhor! Não há quem engula uma faca como eu, nem com semelhante elegância. Mas quando eu mais gozava, me deixaram. O circo foi e eu fiquei. Talvez houvesse muitas oportunidades para mim nesse país, caso o interesse fizesse parte do meu ser. Mas não faz. Mudei logo o meu nome para Guadalupe da Cruz e, como o bom "pau pra qualquer obra" que sou, tornei-me a melhor no ramo meretrício.
Eu tinha o poder para enriquecer, ter todo o qualquer desejado, conhecer o intocável e tocá-lo. Mas tudo gira contra mim, menos a maldição. Não é exagero, meu caro especula, pois, diga-me você o que é, se não maldição, o que será dito: apaixonei-me pelos meus clientes, carma pertinente do primeiro ao último. O monstro-do-armário para qualquer puta. Afundei-me.
Perdida no submerso, cega para os caminhos, percebo que no fundo do poço havia tinta e pincel, então descobri a arte e a arte me descobriu, descobriram a minha arte.
De boca em boca meu nome se espalhou. Surpresos, ninguém acreditava que Lucíola poderia pintar.

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